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Marcos Pinheiro
Diretor da Rádio Cultura e Apresentador do programa Cult 22 há 17 anos, fala de sucesso, dificuldades, escândalos e Porão do Rock

por Fellipe CDC


Rock Brasília - Você assumiu uma Rádio Cultura sucateada, com baixo alcance e poucos ouvintes, logo, queria saber como está o processo de reestruturação?

Marcos - Continuamos lidando com muitas dificuldades. Apesar de termos liberdade de ação no sentido da execução dos projetos e da mudança da programação, sofremos com a falta de investimento técnico e de pessoal. Desde março de 2007, quando assumi a direção, continuo, por exemplo, com os mesmos 12 funcionários nomeados para "tocar" uma rádio que funciona 24 horas por dia, de domingo a domingo. Felizmente conto com uma boa equipe de abnegados colaboradores que produzem programas de graça para a emissora apenas em troca do espaço. Fizemos algumas parcerias com casas como Gate´s Pub e Clube do Choro para equipar melhor a emissora. E, pelo menos, rolou um recente "upgrade" de computadores, que melhorou bastante nosso trabalho.

Rock Brasília - Quantos e quais são os programas da Rádio Cultura hoje?

Marcos - Atualmente a Cultura FM conta com 21 programas musicais, além de três espaços jornalísticos. Da gestão anterior, aproveitamos apenas cinco: Cult 22, Noite de Jazz, Conexão DF, Senhor F 100,9 e QG do Samba (este nós mudamos de horário). Fomos resgatando alguns programas que marcaram época na rádio nos anos 90 - casos de Canta Nordeste, Anjos da Noite, Radiola Reggae, Violas e Violeiros, Estação Brasil, Cultura Clássica e Cultura Hip Hop -, alguns inclusive com os mesmos produtores e apresentadores de 10 anos atrás. E criamos outros como o FMI nas Ondas do Rádio, Papo Firme, Rádio Criolina, Gramofone, A Grande Música, SOS Gaya, Intermúsica e nossa mais recente estréia, o Nu Beat, de música eletrônica, que entrou no ar em julho. Isso sem contar numa parada de "mais pedidas" pelos ouvintes só com músicas independentes de Brasília (o Parada 061) e a volta de espaços jornalísticos como Agenda 100,9, Cultura Notícias e o saudoso Música e Informação, que retornou em abril deste ano.

Rock Brasília - Ao assumir o cargo, você foi podado ou advertido politicamente de como deveria agir e dirigir a rádio?

Marcos - De forma alguma. Quando me convidaram para ser diretor, apresentei um projeto que propunha justamente o resgate da Cultura FM como era nos anos 90, com uma programação alternativa, que abria espaços para o músico independente, sobretudo do Distrito Federal, unindo-os aos clássicos e as novidades da música nacional e internacional. A proposta era o que o GDF gostaria e que havia, inclusive, prometido durante a campanha eleitoral de 2006 em determinado momento. Como disse, falta investimento, maior visão da importância da rádio, mas temos total liberdade de ação.

Rock Brasília - Há quantos anos o programa Cult 22 está no ar? Acredito que seja um dos mais antigos, em atividade initerrupta, a tocar Rock no país. Tem algum conhecimento sobre isso?

Marcos - O Cult 22 completa 17 anos em outubro, realmente de forma ininterrupta, desde o dia 4 de outubro de 1991. Sinceramente, não sei de outro exemplo no Brasil. Ainda mais sendo veiculado no mesmo dia, horário e emissora. E com, pelo menos, uma mesma pessoa no comando.

Rock Brasília - Fora o Porão do Rock, hoje você não promove e nem está a frente de nenhuma produção de shows. O que te levou a isso?

Marcos - Na verdade, minha presença no Porão do Rock é ligada à área da comunicação do evento e curadoria das bandas independentes, como integrante (sou vice-presidente) da ONG Porão do Rock. Embora tome, por vezes, algumas decisões de produtor, não me considero como tal no Porão. Não vou atrás de patrocínios, não faço qualquer tipo de captação de recursos e nem corro riscos financeiros como os produtores nestes casos. O máximo que acontece (90% das vezes) é não receber remuneração pelo meu trabalho. Seja porque não houve dinheiro para isso (sobretudo quando o festival foi gratuito nas primeiras cinco edições) ou porque o dinheiro pago não foi suficiente para cobrir as despesas que acabamos tendo no processo (celular, telefone, gasolina, luz, etc). Fiz alguns eventos como produtor ao longo dos últimos 15, 16 anos e, tirando as festas, só me dei mal financeiramente com shows. Se fiquei no 0 x 0, foi lucro. Isso vai desanimando a gente, fora o trabalho que dá.

Rock Brasília - Saberia explicar os motivos da escassez de público nos eventos direcionados à música alternativa/underground no DF?

Marcos - Acho que a cultura no Distrito Federal como um todo (não só musical ou de rock, especificamente) foi completamente dilapidada no governo anterior. Espaços foram fechados, faltou incentivo para a criação de novos projetos, enfim. O público foi minguando e as bandas/artistas foram perdendo a visibilidade. Pra piorar, a única rádio que dava realmente apoio a essas iniciativas (a Cultura FM) virou popularesca por seis anos (2001 a 2007). Agora, para recuperar o tempo perdido, exige esforço redobrado e muita paciência. Os tempos são outros, existem novos recursos que fazem o público prescindir de ir a um show, comprar um disco, ouvir rádio, etc. Tem que dar tempo ao tempo pra coisa retomar. É triste ir a um show e ver 30, 40 pessoas no máximo, na platéia. E isso está rolando direto. Uma pena, mas dá pra reverter.

Rock Brasília - Como foi a repercussão do projeto Tributo ao Rock Brasília realizado no ano passado?

Marcos - O projeto, na verdade, rolou no final de 2006. Foi uma idéia pra comemorar os 15 anos do Cult 22, que desde o início apoiou o rock independente do DF e viu nascer (e morrer) tantas bandas. O objetivo era juntar essas duas gerações (90 e 2000) em uma grande confraternização, em que uma banda faria versão de músicas de outra qualquer, desde que fosse do rock local. Teve banda prestando tributo a outra ainda na ativa. Teve banda homenageando e sendo homenageada (casos do ARD e do Bois de Gerião). Conseguimos o apoio de três estúdios (Orbis, Blue Records e Ama Music), que nos cederam horas de gravação em troca apenas de divulgação da marca. Reunimos 20 bandas e gravamos um CD virtual, para download na Internet (não quisemos ter dor de cabeça com captar recursos para prensagem), que foi lançado em duas noites no Arena, em dezembro de 2006. Queríamos juntar alguns vocalistas originais das bandas homenageadas para participarem ao vivo das versões. Alguns foram, outros não puderam. Tivemos jam sessions fantásticas reunindo duas bandas no palco. A primeira teve público de pouco mais 200 pagantes. A segunda deu quase 100. Podia ter sido mais gente, mas foi legal. Legal, que o Arena era mais conhecido na época pelos sambões e pelas festas de black music e passou a ser muito utilizado para shows de rock a partir de 2007.

Rock Brasília - Todo ano o Cult 22 promove alguma atividade para comemorar mais um ano de vida. Sendo assim, gostaria de saber se já tem algo programado para este outubro de 2008?

Marcos - Como disse, confesso que estou muito desanimado para fazer show ou outro projeto ao vivo por agora. Em outubro de 2007 até fizemos outro festival, dessa vez no Gate´s (duas noites), com desdobramento de parceria na estréia do Projeto Pílulas Porão do Rock, no Arena. Mas, por mim, ficou nisso. Apoio e divulgo o que tiver, mas fazer, produzir... Mais fácil organizar uma festa de som mecânico, botar um telão e tocar rock sem compromisso. Lá, se der um ou 400 pagantes (já teve festa nossa no Gate´s que deu quase 500), eu não perco dinheiro, me divirto e não tenho aborrecimento. E ainda dá pra faturar um "extra" (hehehe!).

Rock Brasília - Sendo radialista e apresentador de programa, você acaba ouvindo uma série de coisas que não gosta, como Death Slam, por exemplo. Como é lidar com isso e quais os estilos musicais que mais agradam os seus ouvidos?

Marcos - Quem disse que não gosto do Death Slam? (hahaha!). Acho que o grande "segredo" do Cult 22 é tocar rock sem fazer valer só o critério pessoal. É o tal slogan do "rock e pop sem discriminação". Num mesmo programa podemos tocar Madonna e Napalm Death (ou Death Slam)! Para mim, em particular, quem tem que julgar é o público. A gente até pode elogiar um disco ou criticar. Mas não acho certo deixar de tocar só por nossa opinião. Gosto de rock de variadas épocas e estilos. Adoro anos 80, tempos de adolescência, faculdade de Comunicação na UnB, do "boom" do rock britânico, daquela fase pós-punk, que influenciou muito o rock nacional. Gosto demais dos anos 60 (Beatles, Stones, Velvet Underground, Doors, Who) e da transição para o rock pesado no início dos anos 70, sobretudo de Led Zeppelin. O punk rock "roots", de Ramones, Pistols, Clash, Dead Kennedys, é essencial. A atitude do grunge, de Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, foi uma guinada muito bacana. E a geração 2000, sobretudo Strokes e White Stripes, também me chama a atenção. Confesso que não curto som muito extremo, mas gosto dos clássicos do heavy metal (Iron, Slayer, Metallica, Sepultura, Megadeth). Muita coisa!

Rock Brasília - E quanto ao jornalismo impresso, quando voltará a redigir algo?

Marcos - Não penso em voltar a uma redação de jornal tão cedo. É uma rotina cansativa, de plantões nos fins de semana e feriados, de fechamento tarde da noite. Se eu puder evitar isso, será ótimo. Mas foi uma experiência sensacional, de mais de 12 anos, onde aprendi muito e conheci muita gente. Mas, como quase tudo na vida, chega uma hora que cansa.

Rock Brasília - Qual o segredo para a longevitude do Cult 22, uma vez que tudo parece levar a alcunha alternativo/underground no DF dura tão pouco tempo (Landscape, Canal Arte, Via Skala, etc).

Marcos - Não sei dizer ao certo. Acho que a proposta eclética de misturar rock em vários estilos e não segmentar tanto, misturada ao fato de fazer o programa numa emissora pública, onde não precisamos pagar pelo espaço (mesmo que não ganhemos nada por isso), pode ser uma boa resposta para isso. Sei lá...

Rock Brasília - Para muitas pessoas você é a cara do Porão do Rock, e isso faz com que algumas pessoas pensem que está envolvido no escândalo de corrupção com a G4 no ano passado. O que tem a dizer sobre isso?

Marcos - Como expliquei antes, meu trabalho no Porão não é o de um produtor que capta recursos, seja na iniciativa privada ou pública, mas de atuação na área de comunicação e de curadoria das bandas. As denúncias de corrupção que recaíram sobre os três produtores da G4, na chamada Operação Mecenas da Policia Federal, foram como uma bomba sobre nossas cabeças. Em nome da idoneidade da ONG e do festival, fomos obrigados a afastá-los de todo o processo imediatamente, depois de 10 anos de trabalho juntos. Uma decisão dura, mas absolutamente necessária. Não temos certeza ainda de nada sobre a culpabilidade deles. O certo é que, felizmente, nenhuma das acusações implicava em qualquer projeto que envolvesse o Porão, o que para nós foi um grande alívio. Quase que todo um trabalho de longo tempo foi jogado no lixo por causa disso, mas conseguimos dar a volta por cima. Lamento por eles e torço para que consigam provar inocência. Mas acho difícil.

Rock Brasília - Você trabalhou durante muitos anos como sub-editor de esportes do Correio Braziliense, pensa em fazer algum outro trabalho nesse sentido?

Marcos - Como jornalista esportivo? Não sei. Na verdade tenho até colaborado anonimamente para um blog onde posso exercer meu lado mais torcedor, o que é bem legal. Mas não tenho planos neste sentido, por enquanto.

Rock Brasília - Como escolhe os entrevistados para o Cult 22?

Marcos - Não se trata de escolha, mas de oportunidade. Às vezes são as bandas que vem nos pedir espaço para bater papo e divulgar um show ou novo CD (ou os dois), Às vezes somos nós que convidamos para a entrevista no programa. A gente procura seguir o lema do Cult e abrir espaço para entrevistados de estilos diversos dentro do rock.

Rock Brasília - Que conselho daria para as novas bandas do DF?

Marcos - Que levante a bunda da cadeira e corra atrás de seus objetivos. Que aprenda a produzir fazendo. Ou que se una a outras bandas mais experientes para conquistar seu espaço. Não fique esperando que o Governo ajude ou que o Porão do Rock vá ser a "salvação de sua carreira". E que, se não for chamado para tocar, é porque o festival é uma "panelinha". Não é, a banda é que tem a obrigação de se fazer visível, de chamar a atenção dos produtores. É claro que não é fácil, os espaços são escassos e a demanda é grande. Mas ficar em casa reclamando da vida é que não vai adiantar. E, sobretudo, que seja honesto no que esta fazendo em todos os sentidos. Não vai fazer som para seguir modismo, mas porque você genuinamente gosta daquilo. E boa sorte!

Site do Programa: http://www.cult22.com




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