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Djalma Phú
Personagem histórica da cena musical brasiliense, fala de sua vida pessoal e da batalha que trava há 20 anos em prol do rock candango.

por Penny Lane


Madrugada de sexta-feira para sábado, quase meia-noite e meia. O brasiliense Djalma Marinho Maia, o Phú, 35 anos, aquariano, chega ao estúdio da Rádio Cultura FM onde apresenta quinzenalmente, desde 2001, o quadro Sabotagem, dentro do programa Cult 22. Com vários CDs na mão, ele se desculpa com os demais pelo atraso e explica que não pôde chegar mais cedo porque estava trabalhando como diretor de palco em um evento musical.
Baixista e líder da banda de hardcore Macakongs 2009 desde sua formação, em 1998, após seis anos no DFC, diretor de palco em vários eventos locais e dono de vários selos musicais, Phú é personagem histórica da cena musical brasiliense.
Em entrevista ao site Rock Brasília, ele conta um pouco da vida pessoal e da batalha que trava há 20 anos em prol do rock candango.

Rock Brasília – Como tudo começou?

Phú – Foi no final dos anos 80 quando morei em São Paulo. Era o início do punk no Brasil, eu morava no bairro Casa Verde. Tinha uns caras na minha rua que eram punks e eu gostava de ficar vendo passar, sentia até medo, coisa de criança. Também lembro de um vizinho que ia se mudar e me deu uns discos de vinil. Ele tinha um do AC/DC, eu nem ouvi, mas gostava da capa, um cara com chifre e um rabão na mão. Também me deu um do Deep Purple e até uns do Agepê (N.R: sambista carioca). Já em Brasília, lembro que pedi para comprar o primeiro da Blitz, que tinha as duas últimas faixas censuradas. Depois ganhei um do Michael Jackson, era a época do break, todo mundo dançava no Guará. Gostava também de Bob Marley. Acho que tinha de 12 para 13 anos quando fiz um trato com uns colegas da escola, do Centro de Ensino nº 1 do Guará: fomos vestidos de punk no primeiro dia de aula. Uns caras lá perguntaram se a gente gostava do estilo e eu nem sabia bem o que era isso. Eles disseram que tinha muita coisa boa de punk pra ouvir. Acabei indo ao Sebo do Disco, no Venâncio 2000, e troquei os vinis que tinha pelo álbum dos Garotos Podres. Isso mudou a minha vida. Até hoje eu escuto esse disco e amo! É engraçado que o guitarrista dos Garotos é o cara que me tatua, eles são meus amigos. O primeiro show punk que assisti foi dos Inocentes no Circo Show (que funcionava ao lado do ParkShopping) em 1986, no lançamento do EP Pânico em SP. Fui também no Camisa de Vênus. Os caras falavam muito palavrão, a galera cheirando lança-perfume, essas coisas...

Rock Brasília – E a sua primeira banda?

Phú – A gente juntou uns malucos lá no Guará, em 1987. Havia uma dificuldade imensa para conseguir equipamentos. Se alguém tinha uma bateria era o máximo. Um tinha amplificador, outro um cabo ou uma guitarra. Daí a gente juntava pra ensaiar. Não existia fábrica de instrumentos como hoje, acho que só a Pingüim. A primeira banda se chamava DFCaos. Que depois virou o DFC, em 1989, e acabou. Depois, em 1992, a gente voltou com outra galera e, como não tinha outro nome, usamos DFC mesmo, que existe até hoje. Eu trabalhava de office boy no Ministério da Agricultura contratado pela Funabem como menor carente. Na hora do almoço ia pro Cine Ritz assistir filme pornô. Eu era grandão e passava pela portaria. Totalmente punk.

Rock Brasília – Como era a cena de Brasília na época (final dos anos 80)?

Phú – Era só briga. Metaleiro contra punk, rolava facada, só merda. Tinha muita gangue, quase não tinha mais show. O Little Quail era uma das únicas bandas que se manteve na ativa, o resto tinha acabado. Lá por 1992 voltou o Raimundos, outras bandas estavam começando. E rolava a onda do grunge de Seattle. A coisa melhorou muito. Tinha Gog, Câmbio Negro, Restless, Oz, Low Dream, Os Cabelo Duro... Era o Governo Collor, daí abriram pra importação de instrumentos. Foi aí que surgiram de verdade os estúdios para ensaio e gravação. A gente ia pra outras cidades e neguinho falava: “Cara, Brasília só tem banda foda!” Hoje em dia, com tanta facilidade, a gente vê tanta banda ruim. Fico triste...

Rock Brasília – Tem alguém daquela época que você destaque?

Phú – Se tem um cara que faço questão de falar é do Digão, do Raimundos, que tocava antes nos Filhos de Menguele. Sempre teve uma condição financeira boa, mas nunca foi playboy, “prego”. Lembro que ele tinha uma bateria de acrílico, que quebrou o bumbo. A gente precisava de umas coisas e ele deu. O bumbo a gente emendou com durepox e ficávamos ensaiando com um bumbo e um prato, era horrível. Agradeço até hoje a ele por isso...

Rock Brasília – E hoje, qual a melhor banda de Brasília pra você?

Phú – Deceivers. Se os caras fossem de fora estariam se dando muito bem! Tem o Lafusa... Não gosto muito do estilo deles, mas o show é bem feito. O Gog é um fenômeno! Se ele fosse dos Estados Unidos encheria os estádios. O cara não diz um palavrão no palco, manda muito bem. O Violator é meio tosquinho, mas gosto. Tem o Khallice, o Harllequin... Não são bem minha praia, mas são bons. O Linha de Frente também Pena que não tem público pra eles.

Rock Brasília – Por que você acha que os shows dessas bandas não têm público?

Phú – Todo mundo é playboy! Os próprios caras das bandas não vão ver. Se fizer um evento com cinco bandas, uma não assiste ao show da outra. Acho que falta amor. E se falta amor, é playboy. Pra mim, playboy é o extremo do filho da puta, é a pior coisa que alguém pode ser. Ninguém mais compra um CD, uma camiseta, nada. Os jovens vão pra azaração, pra lugar que tem mais mulher, os interesses são esses. Hoje as bandas tocam sem cachê porque sabem que não dá pra cobrar, que o produtor vai levar prejuízo no final.

Rock Brasília – Qual a alternativa?

Phú – Não tem. No show do Galinha Preta e do Quebraqueixo no Teatro Garagem (29 de abril), a R$ 5,00, foram 25 pagantes. Na época da Feira de Música (entre 1991 e 1993) lá, ficavam 500 pessoas do lado de fora. Com toda informação, com toda a divulgação que tem hoje, o público não vai. O Álvaro, que toca no Pulso, me disse uma vez que as pessoas têm preguiça de fazer download. Eu fiquei puto com essa frase porque nem sabia o que era download. Hoje eu sei, e vejo que é isso mesmo. Mas eu já vi pior, como na época que falei, entre 1989 e 1992. Acho que tem que destruir tudo pra construir de novo. Quem sobreviver, vai ficar mais forte. Quem não agüentar, vai virar boy.

Rock Brasília – Das bandas estrangeiras, qual você gosta mais?

Phú – O D.R.I., apesar de fazer 12 anos que não lança um disco. Gostava do Suicidal Tendencies, mas está cada dia pior. Napalm Death é uma banda que nunca parou, não tem álbum ruim, é como o Gog. Não teve brecha na carreira.

Rock Brasília – Quais são os novos projetos do Macakongs 2099?

Phú – Lançamos o quarto álbum no final de 2007 (Tropicanália) que, pra mim, é o melhor que já gravei. Tem participação de 18 vocalistas diferentes, não existe nada parecido no mundo. A gente ia pra Europa, mas o baterista teve um problema. Eu já fui com outra banda pra lá (Ação Direta), mas queria ir com o Macakongs pra comemorar os 10 anos de banda, que formei em 1998. Queria poder gravar um DVD, gravar com outros artistas, como o ARD, que existe há “milhões” de anos, para pelo menos registrar a história, porque não sei quanto tempo mais isso vai durar. Tem shows animadinhos ainda, tipo em Águas Lindas, mas são poucos.

Rock Brasília – Você é baixista, como é sua relação com o instrumento?

Phú – Era o mais fácil, porque bateria era mais caro, sempre quis ser baterista. Estou fazendo aula agora e formando uma banda com a Cilene que toca baixo no Bonecas de Trapo. Vai ser punk rock, tipo Ramones. Vamos procurar um ou uma guitarrista e, quem sabe, outro vocal. Ainda não temos nome.

Rock Brasília – Fale, então, sobre o seu selo...

Phú – Tenho agora um selo novo. Acho que vendi só 10 CDs por ele. Ninguém compra mais. Esse é meu 11º selo. Tento vender na internet, mas não rola, as pessoas têm preguiça de comprar. Venho aqui na Rádio Cultura, participo do Cult 22, pago a minha gasolina, compro CD. São raros os caras que mandam material pra mim. Tô aqui há sete anos, mas não ganho nada. Se eu largar a linha de frente vai ser pior. Eu prefiro vir pra divulgar, sou apaixonado por hardcore, punk rock...

Rock Brasília – Você acha que o público do hardcore está mais concentrado nas satélites?

Phú – Com certeza. Mas quando custa grana, ninguém tem amor pela música. Isso não acontece com o rap. Quem faz rap é preto, filho de preto, mora nas satélites, mas os shows custam R$ 25,00 e estão cheios. Com o hardcore, não, ninguém quer pagar nem R$ 5,00. Quando dá 100 pessoas, a gente solta foguete.

Rock Brasília – É verdade que já foi porteiro?

Phú – Já fui tudo: porteiro de puteiro, office boy, vendedor de shopping, de skate shop. Já ajudei meu pai levando marmita pra pedreiro, nunca tive vergonha disso. Meu pai nasceu e morreu “pião”. A gente saía com um carrinho de mão, enxada e tesourão, para cortar grama no Guará, vendia jornal... Hoje em dia não pode mais, é exploração de menores.

Rock Brasília – Qual seu nível de escolaridade?

Phú – Segundo grau. Na época do punk, eu larguei tudo. Pensava: “Foda-se, o mundo vai acabar, no future!” E não estudei mais.

Rock Brasília – Se tivesse que escolher um curso superior, qual seria?

Phú – Se eu tivesse grana, faria Medicina. Seria ortopedista. Queria mesmo é resgatar vítimas de acidentes, dar um jeito em neguinho todo quebrado. Tipo aqueles caras que tiram os acidentados de dentro dos carros batidos.

Rock Brasília – Você ainda mora no Guará?

Phú – Sempre. Só uma época morei na Asa Norte, quando meu pai era zelador de um edifício.

Rock Brasília – Quantos filhos você tem?

Phú – Quatro. Casei quando minha namorada engravidou, era muito criança. Tive dois com ela, um menino e uma menina, hoje com 16 e 13 anos. Depois tive as gêmeas (5 anos) com outra mulher e acho que elas vão ser punk rock.

Rock Brasília – E que tipo de pai você é?

Phú – Apaixonado, mas muito old school. Acho que o mundo está perdido e que sempre é por causa dos pais. Mando desligar a televisão e ir estudar. Não vai ver Big Brother, vai ler, não vai ser igual a mim. Vídeo game é só quando tiver grana. Criança com celular não existe pra mim. Meus filhos não moram mais comigo, os mais velhos estão em São Paulo com a mãe. As gêmeas também estão com a mãe, interfiro muito pouco na educação delas. Estudam das 8h às 18h há três anos. Sinto muita falta, choro por causa dos moleques.

Rock Brasília – Um conselho para alguém que está começando a tocar agora...

Phú – Toque com paixão, sem se importar com retorno. Assista aos shows dos outros, cobre dos caras de sua banda pra fazer isso também. Compre CD, camisetas, adesivos... Se continuar desunido desse jeito, vai acabar mesmo.


Colaborou Cristiane Rosa




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