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Evandro Esfolando Vieira
Vocalista do Quebraqueixo fala sobre hardcore, literatura e Raimundos.
por Penny Lane 26 de janeiro, 2010 
Evandro Vieira é um cara tranqüilo, de poucas palavras. A voz mansa não esconde um dos grandes nomes do hardcore nacional. Vocalista da banda Quebraqueixo e apesar de classificar sua voz como “horrenda” nada impediu de ter várias bandas e gravar discos. Blogueiro e autor de três obras literárias, é também colaborador do nosso site.
Assíduo freqüentador da cena musical da cidade há 23 anos, Evandro participou ativamente do movimento hardcore do anos 90. É amigo íntimo de várias figuras igualmente importantes do rock nacional e autor da música “Palhas do Coqueiro”, um dos hits dos Raimundos.
Conheça agora um pouco mais desse cara que é considerado uma enciclopédia viva da história do hardcore de nossa cidade, em entrevista exclusiva para o site Rock Brasília.
Ficha (quase) completa:
Nome: Evandro “Esfolando Cigano Igor Thiba Firestone” Vieira
Idade: Completarei 40 primaveras no fim desse ano e 23 anos fazendo parte da cena punk HC de Brasília.
Profissão: Neurocirurgião e piloto da força aérea, além de dono e principal acionista do Esfolando Empreendimentos.
Onde nasceu: Brazza City - DF
Estado Civil: disponível e sem descendentes.
Você já fez parte de várias bandas antes do Quebraqueixo. Fale um pouco sobre sua carreira de cantor.
Eu não me considero um cantor, já que tenho plena consciência de que minha voz é horrenda, mas não saber cantar nunca me impediu de ter bandas, fazer shows e gravar discos. Minha primeira banda foi o Sans Cullotes com o Rodolfo (ex Raimundos), Zé Ovo (ex- Litlle Quail) e o Berma. Isso foi de 1987 até 1990. Depois o Zé ovo saiu, entrou o Piolho (ex BSB-H) e mudamos o nome da banda pra Royal Street Flesh e entramos em coma em 1992. Sou da formação original do Macakongs 2099 onde fiquei de 1998 até 2004. Teve o Nocautekoice, que foi o embrião do Quebraqueixo de 1997 até 2001. E o Quebraqueixo está oficialmente em atividade desde 2001.
Você é um cara que sempre acompanhou o Raimundos. Viu o nascimento da banda e todas as suas fases até hoje. Como surgiu essa amizade?
No fim de 1986, eu e Berma queríamos montar uma banda, daí o Rodolfo e o Zé Ovo apareceram. Minha primeira banda foi com dois futuros astros do rock nacional. Chique né? Depois a gente estudou junto no Inei e no Objetivo. Eu já conhecia o Digão e o Canisso antes do Raimundos porque eles andavam com a gente. Éramos os punks do Lago Sul, morávamos perto e tinha todo o lance da maconha que nos unia. Mesmo depois do Raimundos fazer sucesso, nossa amizade continuou fortalecida. Quando o Rodolfo fez sua conversão religiosa, rolou um distanciamento. Nos encontramos muito pouco nesses últimos anos, afinal eu sou um pecador e má influência para o rapaz. Apesar do afastamento, tenho muita consideração por ele. Por morarem em Brasília, trombo com o Digão e o Canisso direto. Canisso chegou a tocar guitarra no Quebraqueixo por um ano e meio e esse tempo fez com que nossa amizade se estreitasse. Sou o seu melhor discípulo no “Método Beiradinha” de conseguir coisas grátis. Da formação original, o Fred é o cara que menos tive convivência, mas também o conheço bem antes dele entrar no Raimundos. Já o Marquinho e o Caio são amizades mais recentes.
Você escreveu Palhas do Coqueiro junto com o Martin Luthero (Telo). Conte como surgiu a música e se existem mais composições dessa magnitude feitas por você e tocadas pelos Raimundos.
Palhas do Coqueiro é o meu único vínculo artístico com o Raimundos. “Palhas” foi uma das primeiras composições da banda. O Telo tinha escrito a letra que era repetida na parte lenta e na parte rápida, como eu ia direto nos ensaios, ficava com a melodia na cabeça. Depois de uma dessas sessões, voltei pra casa e compus a parte HC da música enquanto tomava banho. Depois mostrei a minha parte da letra pros caras e fui aprovado. O engraçado é que eu fiz de brincadeira, pois nunca imaginei que a banda fosse fazer sucesso. Tem o lado financeiro também, somados todos os valores que eu recebi de direitos autorais até 2001, daria pra comprar um carro popular zero KM. De vez em quando entra uma merreca na conta, mas o valor de ter feito parte da coisa é incalculável.
Muitos dizem que Raimundos já era, que a banda hoje vive de sucessos antigos, etc,. Como você vê o Raimundos hoje e a saída do Rodolfo da banda?
Primeiro acho que Raimundos é um motivo de orgulho para Brasília. Em toda a história do rock nacional, pouquíssimas bandas no Brasil atingiram um patamar de sucesso semelhante ao que eles tiveram. Ao contrário da maioria das bandas que experimentam o declínio e depois abandonam o barco, Rodolfo resolveu sair da banda no “auge do auge”. Apesar de todo o dinheiro, sucesso, sexo e drogas, o cara estava doente e infeliz. Ele tinha todo o direito de sair da banda, o problema é ele fez isso de uma maneira abrupta, pegando todo mundo de surpresa. Não ouve conversa e ainda há muita mágoa e ressentimento. Uma pancada dessas é muito difícil de se administrar, o Raimundos sem o Rodolfo tinha tudo pra acabar e mesmo assim os caras foram guerreiros e continuaram. Lógico que muda muita coisa, mesmo assim acho que eles se saíram muito bem. Eu gostaria de ouvir músicas novas da banda e é uma coisa que muita gente cobra, mas também não vejo problema em assistir um show só de clássicos do repertório raimundiano. Meu conceito da banda só caiu (drasticamente) depois da notícia que o cara do Detonautas vai cantar com eles. Sou um fã chato e ciumento e torço pra que isso passe logo.
Para você como anda a cena de hardcore no país? E em Brasília, alguma banda te chama a atenção?
É difícil falar sobre a cena no Brasil, pois eu conheço muito pouco. O que eu posso te afirmar é que em todo canto do país tem bandas legais e pessoas bem intencionadas em ver o hardcore crescer, mas isso é insuficiente. Em Brasília, acho que o maior problema é a falta de investimento em formação de público. São sempre as mesmas bandas tocando pra mesmas pessoas. Shows com estrutura precária e produção amadora que afastam o público novo e antigo. Há um comodismo tolo em se achar que o HC tem que ser tosco e nas coxas, eu discordo, vejo muita sofisticação no estilo e luto pra que ele seja valorizado. Uma banda que tem muito potencial é o Gonorants, mas eles precisam vazar de Brasília imediatamente. Tem que ralar em São Paulo ou Rio, porque aqui é roça.
Você já lançou dois livros e um gibi (Esfolando Ouvidos, Grosseria Refinada e Quebraqueixo - a banda desenhada). O primeiro retrata a cena de hardcore em Brasília nos anos 90, o segundo é uma coleção de contos. Como surgiu a idéia de um gibi chamado Quebraqueixo, com as estórias baseadas nas letras das músicas da banda?
O Quebraqueixo estava começando a pré-produção de um disco novo e veio a preocupação de fazer algo diferente pra chamar a atenção pro nosso trabalho. Daí pintou a idéia de adaptar as letras desse CD para os quadrinhos. Conseguimos aprovar junto ao FAC, um projeto chamado “Quebraqueixo – A Banda Desenhada” que incluí a publicação de um livro luxuoso, colorido e de capa dura com 15 histórias em quadrinhos baseadas nas letras e 14 shows em escola públicas do DF e entorno, seguidas de oficina de quadrinhos. Como demora para os recursos serem repassados, bancamos do próprio bolso, um gibi mais simples com o material que já estava pronto para participarmos do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) realizado em outubro do ano passado em Belo Horizonte. O Quebraqueixo fez show lá e com o gibi, conseguimos divulgar bastante a banda, até internacionalmente.
Quais outros livros sobre o rock de Brasília ou brasileiro você indicaria?
O rock, como gênero de literatura sempre foi negligenciado pelo mercado editorial brasileiro. Antigamente, tinham poucos livros sobre o assunto, geralmente escritos por não músicos. Hoje melhorou um pouco, o pessoal do rock está escrevendo mais e fomentando uma cena literária com público específico e interessado no assunto. Quando eu lancei o “Esfolando Ouvidos”, só tinha o Diário da Turma do Paulo Marchetti. Depois eu conheci o livro “Jason 2001” do Panço e o “10 anos de Goiânia Noise”. Mais recentemente eu li “Guitarra e ossos quebrados” do Quique Brown e pretendo começar a ler em breve o “Una Gira en Sudamerica” do Mozine.
Quais são seus novos projetos pessoais para 2010?
Eu tenho desenhando bastante e quero publicar um gibi com minhas tirinhas do Muerteen (dois esqueletos adolescentes) e HQs do Uno & Duo (irmãos siameses que são lutadores de telecath). Tem um livro de contos infantis já meio engatilhado e o documentário do “Esfolando Ouvidos” que está na pré-produção. Quero continuar a escrever no meu blog e colaborar com conteúdo para outras mídias. Também vou continuar a montar meu camelô de livros e gibis nos shows e eventos bacanas daqui e de outras cidades.
Sobre o filme O Galinha Preta: quem escreveu, quem participou, qual o enredo do filme?
O filme “O Galinha Preta” foi baseado no meu conto “Trabalho do Galinha Preta”, que foi premiado pelo SESC e está presente no livro “Grosseria Refinada”. Eu e a diretora Cibele Amaral escrevemos a parte inicial do roteiro. Participam do filme: Alexandre Carlo (vocal do Natiruts), DJ Montana, o cantor brega Falcão, Jovane Nunes do Melhores do Mundo e um monte de atores e não atores de Brasília, inclusive eu e os caras da banda Galinha Preta fazemos umas pontas. O filme teve uma estréia desastrosa no Festival de Cinema de Brasília do ano passado. No dia que o filme ia ser exibido com o Cine Brasília lotado, a diretora cancela a exibição alegando que o som do filme não tinha ficado pronto. Um puta balde de água fria. Acabou que o filme passou no dia seguinte, ainda apresentando falhas no áudio. Achei que o filme ficou bacana e que vai agradar quem gosta de comédia e ação. A previsão é que entre em cartaz ainda esse ano.
O quê esperar da Quebraqueixo neste ano que começa?
O Quebraqueixo está mandando o CD novo para a fábrica em fevereiro. Estamos aguardando a liberação dos recursos do FAC para realizarmos o projeto “Quebraqueixo – A Banda Desenhada”. A intenção é publicar o livro de HQs e fazer os shows e oficinas na escolas ainda nesse primeiro trimestre. Depois vamos fazer lançamentos do CD e do livro em outras capitais. Está nos planos fazer um clipe de animação e outro de live action.
Quer conhecer mais sobre o Evandro? Passa lá: http://esfolando.wordpress.com
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