Estamira
Banda conta como quebra barreiras e preconceitos no meio musical.
por Rômulo Poser 
A banda Estamira - nome também do longa brasileiro de 2006 do Diretor e fotográfo Marcos Prado - provalvemente foi a fonte inspiradora para que o conjunto vinha a ser batizado pelo o mesmo. Com uma presença bem considerável nos shows da cidade. O quinteto formado por: Ludmila Gaudad (Vocal), Clarissa Carvalho, Sara Lee (Guitarras), Manu Castro (baixo) e Kallyfa Lopes (Bateria). Nos apresenta a proposta da banda que é quebrar barreiras e preconceitos no meio musical e social, com uma sonoridade bem metal e levadas do hardcore. Conversei com todas as integrantes, no qual cada uma expressa tudo o que a banda sente e pretende passar para o público roqueiro. Confira os detalhes!
Gostaria de saber mais sobre o início da Estamira e como se deu a entrada da vocalista Ludmila (Ex-Poena)?
Ludmila Gaudad: Bem, na realidade eu não entrei na Estamira após ela estar formada, pois ela foi formada por todas nós, juntas. Eu e Clarissa (guitarrista e também ex-Poena) não queríamos “deixar o rock” só porque um trabalho havia acabado. Então acordamos que iríamos tentar montar outra banda. Não era um plano montarmos algo só com mulheres, por isso começamos a falar com gente conhecida, procurar gente nova na internet, fazer alguns contatos, estas coisas... Então a Clarissa chamou a Tava (ex Flanco e Mamãe não tenho pudor) para compor o vocal junto comigo. Na mesma época a Kallyfa (baterista) entrou em contato comigo me convidando para assumir os vocais da Helianto, banda dela na época. Eu logo retruquei: “Na Helianto não entro, mas se você quiser entrar na banda que eu estou montando...” Por incrível que pareça na mesma época conheci a Sara (guitarrista) também pela internet, conversando sobre música, bandas, Poena e Lamá Sabactâni (ex-banda dela). Caiu a ficha na hora! Não estávamos procurando gente para tocar? Estavam todas ali, oras! Então combinamos de nos encontrar em um bar para conversar, ver se a sintonia era boa, acordar um cover e um dia para um ensaio. No primeiro ensaio já vimos que ia dar certo e no seguinte já começamos a compor músicas próprias. Fomos então atrás de alguém para tocar baixo. Neste momento, já que éramos cinco mulheres, optamos sim por procurar outra mulher. Ainda bem que encontramos a Manu, conhecida da Sara. Infelizmente, assim que a Manu entrou e já tínhamos algumas composições, a Tava saiu para se dedicar mais ao seu trabalho (ela é cineasta). No lugar entrou a Suzi, ex-vocalista da banda Stay Away. Depois de um tempo a Suzi também saiu por conta das viagens de trabalho que eram constantes. Depois de pensarmos bastante e conhecer outras possíveis vocalistas para a banda, chegamos à conclusão de que ia ser muito desgastante procurar outra garota, passar todo o material, esperar a fase de adaptação... para no fim nem ter certeza de que iria dar certo... Acabou que eu fiquei sozinha de novo (risos). Mas a Manu também começou a assumir alguns “backing berros”, o que foi consolidando os vocais da Estamira .
Recentemente vocês inauguraram o myspace da banda, a opção de lançar músicas vai ser só na rede ou vem algum trabalho físico pela frente?
Manu Castro: Lançar um CD é o sonho da maioria das bandas. É muito boa a sensação de produzir alguns tipos de arte (músicas e letras) e somar a elas outro tipo de arte com o encarte, por exemplo. Bandas como Cradle of Filfh e Tool aproveitam isso muito bem. Mas a prensagem, mesmo que pequena, é muito cara. A banda precisa ter um tempo de estrada para ter grana e fãs em número suficiente para comprar este material. Infelizmente ainda não é nosso caso. Muitos comentam que “é besteira gravar CD com os meios de divulgação que a internet oferece hoje em dia, é muito gasto para pouco retorno”, mas acredito que se a pessoa curte o trabalho de uma banda, uma ótima maneira para contribuir com o seu sucesso é sim: comprando material. Mas, claro, o sonho permanece. Quem sabe pro ano que vem?
A sonoridade, algo que poucas bandas femininas buscam que é o que podemos rotular de Metal Core ou estou equivocado? Quais os tipos de personalidade e política que banda se espelha para buscar este tipo de som mais intenso?
Ludmila: Costumamos dizer que talvez sejamos aquilo que as pessoas não querem ver. Isto porque este projeto é resultado da união de cinco mulheres que ousam ocupar um espaço que ao longo da história do rock nunca lhes foi destinado: o palco. Cada uma de nós confrontou ao longo da própria vida os padrões socialmente impostos às mulheres. Nossas próprias existências, tal como se dão, são uma afronta às expectativas sociais do "ser mulher". E isso se reflete na nossa personalidade enquanto banda, no que transmitimos politicamente. Mesmo que de forma mais ou menos intensa para cada uma, mais ou menos consciente para cada uma. E entendemos que nossa expressão e postura como banda é também uma postura política. Já musicalmente temos influências diversas, não só de bandas com mulheres, mas das formadas por homens também, amplamente citadas em outras entrevistas que a Estamira deu. Agora, como o trabalho das mulheres sempre foi (e ainda é) pouco mostrado, mesmo porque elas podem não se sentir confortáveis neste espaço que é o palco, tudo produzido por mulheres e de qualidade que foi chegando aos nossos ouvidos foi servindo de influência, mesmo que fora no metal core. Se fizermos uma retrospectiva que vai subindo, desde os anos 60/70 temos Mutantes, Janis Joplin, Patty Smith, Warlock, Roxette, Bangles, Joan Jett, New Order, B 52's, Siouxe and the Banches, Vixen, L7, Biquini Kill, Sonic Youth, Hole, Alanis Morissete, Dominatrix, Smashing Pumpkins, A perfect Circle, Walls of Jericho, Bleeding Through, In this Moment, Paramore, Otep, Arch Enemy, The Agonist, Light this city, Straight line stitch. Nos orgulhamos muito de no Distrito Federal termos acompanhado os trabalhos do Kaos Klitoriano, Bulimia, RTL, Valhalla, Mezulla, Mayombe, Senha Moral, 10zer04, Medjah, Disforme, Toda Dor do Mundo, Silente, Flanco, Lamá Sabactâni, Pulso, Helianto, Stay Away, Medjah, etc. E você tem musicistas importantes ainda na cena rock como a super talentosa baixista Paula Zimbres, a Adriana (antiga Kaos Klitoriano, agora no Terror Revolucionário e Besthoven), a Ellen Oléria (atualmente na Soatá) que são figuras que nunca param de produzir algo novo.
Nos últimos meses a banda tem se apresentado com uma certa frequência nos shows underground da cidade. Qual a experiência obitida e o que mais tem chamado a atenção em toda esta maratona?
Sara Lee: Engraçado. Quando se passa tanto tempo rodando pela cena (seja produzindo shows, seja indo ver, seja tocando) vai se criando a impressão de que tudo mudou (os lugares, as pessoas, as ideologias, as músicas, as modas)... Mas ao mesmo tempo parece tudo igual: a falta de estrutura, a falta de subsídio ao menos para chegar ao local do show, a falta de ligação entre as bandas de diferentes estados, o desvio da verba que deveria ir para as bandas, o monte de covers de bosta que toma lugar das bandas independentes, a desorganização dos eventos, o som ruim, as mesmas bandas tocando nos mesmos lugares, o machismo que impede as mulheres de entrarem no rock... Tocamos no II Encontro HC Extremo Oeste, em Cuiabá/MT, à convite do Sindicatto (uma espécie de cooperativas de bandas que existe por lá) e voltamos com o gás renovado. Esta galera está fazendo algo que dá muito certo: bandas interessadas na cena, preocupadas não só com sua própria banda, mas com o “mundo rock” em geral, se uniu para comprar equipamentos de qualidade, organizar eventos, manter ativas páginas na internet, colocar um programa em uma rádio, fazer intercâmbio com bandas de fora, etc. E uma idéia bem parecida com a do recém formado coletivo Cultcha, de Taguatinga. Estas iniciativas funcionam e vão longe. Quem sabe uma cooperativa com as bandas de/com mulheres aqui do DF? Ia ser foda! Fora isso podemos dizer que nossos shows costumam ser bem animados! Dificilmente as pessoas ficam paradas e quando ficam, é com cara de espanto (risos). A gente acha que é porque as pessoas não esperam um som tão furioso quanto o nosso vindo de mulheres. O machismo do rock nem sempre é quando gritam “gostosa”, mas podemos entender que o próprio espanto, o não esperar tal som de mulheres, é uma forma de demonstração de machismo mesmo que não intencional.
Claro, por trata-se de uma banda totalmente feminina, acontece aquelas cantadas nos shows, na maioria das vezes indesejadas. Como vocês encaram toda esta situação?
Kallyfa Lopes: Serve a Clarissa furando um cara com os chifres da guitarra? (risos). Bem, não gostamos muito de gastar nosso tempo com este tipo de gente, mas nunca ficamos calada porque é isso que eles querem: nos intimidar. Então costumamos dizer algo bem grosseiro e de forma rápida, para não dar espaço a um bate-boca que pode prejudicar o show e ao mesmo tempo para ficarmos submissas, como se tivéssemos que aceitar de tudo como se tudo fosse “piada ou brincadeira inofensiva”, como todas as mulheres cansam de ouvir todos os dias. Tentamos manter o respeito, não só por ser uma banda formada totalmente por mulheres, mas sim por estamos fazendo o que gostamos, como qualquer outra banda formada por homens que existe por aí. Quando nos vemos em situações como esta, rapidamente “cortamos o mal pela raiz”, não só uma vez, mas várias e quantas vezes forem necessárias.
Vocês pregam de alguma forma o feminismo, e até que grau de extremidade ele chega?
Clarissa Carvalho: Nossa banda não se diz feminista, mas temos algumas integrantes que identificam enquanto feministas e até militam socialmente nesta área, como é o caso de Ludmila, Kallyfa e Eu. Sendo assim, seria impossível dizer que não temos, no dia a dia, em nossas letra, em nossa postura no palco, em nossa vida pessoal o feminismo. Pensamos que qualquer coisa que questione os padrões e poderes impostos é extremo, e assim podemos entender que a luta pela igualdade entre homens e mulheres é também extrema em si. Não acreditamos que ela tenha sido alcançada só porque hoje em dia votamos e trabalhamos. Os direitos civis podem até ser os mesmos, mas os simbólicos e os direitos na prática não são e, justamente estes, queremos atingir. Queremos subir no palco e não nos amarem só porque somos uma banda de mulheres ou nos odiarem só porque somos uma banda de mulheres. Queremos que olhem uma banda subindo no palco e, após nos ouvirem, decidam se gostam ou não. Esse assunto é bem profundo para nós e em algum outro momento podemos voltar nele. Mas por enquanto podemos dizer que se um cara sobe no palco e as pessoas prestam atenção no seu som e não em seu sexo e se uma mulher sobe ao palco e já ouve um “gostosa” ou as pessoas já esperam um som específico dela(s) antes que sequer comece a tocar, há de você convir que existe uma desigualdade aí e que o rock para os homens é uma coisa e para mulheres é outra. E isso, se depender da Estamira, um dia vai acabar. Pode anotar isso aí como um ato feminista declarado!
Garotas, obrigado pela expontaniedade. Espaço aberto para considerações finais.
Entrem em contato conosco pelas páginas abaixo e, claro, nos chamem para shows! ;)
http://www.myspace.com/bandaestamira
Twitter: http://www.twitter.com/bandaestamira
Endereço Eletrônico: bandaestamira@gmail.com
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