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Gustavo Ribeiro de Vasconcelos
Músico e proprietário do selo e produtora GRV fala de sua trajetória, expõe sua opinião polêmica sobre políticas culturais e a cena musical brasiliense.
por Penny Lane 
O carioca e flamenguista de carteirinha Gustavo Ribeiro de Vasconcellos, 41 anos, é uma das pessoas mais ativas da cena musical de Brasília. Proprietário do selo e produtora GRV (sigla que leva as iniciais de seu nome) há nove anos, é músico desde 1985, tendo tocado como baterista de quase 20 bandas ou projetos diferentes até agora.
Como produtor já lançou discos de 17 artistas e bandas diferentes da cidade, além de algumas coletâneas. Promoveu eventos diversos, de pequenas festas e shows locais a grandes encontros internacionais, como as três edições da Feira da Música Independente Internacional de Brasília (FMI), realizadas entre 2005 e 2007. E é um grande incentivador das discussões sobre políticas culturais e as diferentes visões sobre o mercado musical.
Em entrevista exclusiva ao site Rock Brasília, Gustavo fala de sua trajetória, expõe opiniões polêmicas sobre a cena musical brasiliense e reclama da ausência de uma atuação mais efetiva do governo e da iniciativa privada na cultura local.
Como surgiu seu gosto pela música? E sua aproximação com a cena independente?
Meu gosto pela música começou no Rio de Janeiro na década de 70, através do rádio e dos ensaios, sábados e domingos, da bateria de uma torcida do Flamengo. Naquela época o “jabá” não devia ser uma coisa muito organizada. Os programadores de rádio eram profissionais e amantes, antes de qualquer coisa, de música. E o público realmente participava e determinava sucessos musicais, que depois eram vistos nas TVs, comprados em compactos e vinis e vistos em shows pela orla do Rio de Janeiro. Por outro lado, nessa união de música e futebol, prancha e areia, praia e samba pós-praia, tinha o privilégio de ouvir os clássicos do samba daquela época e, claro, os hinos do Flamengo para os jogos que eu ia ao Maracanã. Lembro-me da sensação gostosa de irmos para o estádio, com a galera da rua, ao lado da bateria. Aquilo fazia o maior sentido. Eu era tão vidrado naquele batuque, que era sempre o primeiro a chegar aos ensaios e, observando aquilo, comecei a entender os bastidores e a estruturação de um coletivo musical.
Com o passar do tempo, comecei a sacar a união dos instrumentos dentro da música, até que um belo dia, o cara do chocalho metido numa confusão com duas mulheres, que deviam ser a nº 1 e a nº 2, me perguntou: “Pirralho, você está aqui todo final de semana. Quer tocar? Preciso dar um mergulho”. Depois dessa eu virei substituto de todos os músicos em apuros amorosos, fisiológicos, financeiros, até o dia em que toquei no Maracanã com a Flachopp. Foi amor à primeira, segunda, terceira e até hoje, todas as vistas. Uma sensação de prazer, poder, confiança, segurança e, talvez por isso, esteja nisso até hoje. É como um dos lemas da nossa grande torcida: “100% amor”.
Além disso, os colégios do Rio naquela época tinham iniciação musical em seus currículos a partir da 3ª série e aí, aos 10 anos de idade, para minha surpresa, na minha primeira aula de música o professor entrou com um tarol nas mãos. Deixou de lado a caixinha e foi dar aula de música. E eu confesso que esqueci da aula e fiquei esperando o término para tirar um som do tarol. Acabada a aula, todo mundo foi para fora da sala e eu fui tirar um som com o professor. Aí virei roadie do professor e me lembro que naquele ano teve um festivalzinho de música no colégio e acompanhei todos os candidatos só com a caixinha, além de obviamente organizar a entrada dos candidatos, dar o sinal para o início das apresentações, tirar um do palco, colocar outro. Era instintivo, mas eu já tinha muita experiência naquela época. Afinal, no meu currículo de Maracanã, na bateria da Flachopp, eu toquei como nunca quando o Flamengo foi campeão do Rio com aquele gol do Rondinelli, aos 41 do segundo tempo contra o Vasco. Foi primeiro título tocando, em 1978.
Depois, vim para Brasília, mas só fui aceitar a mudança em 1984, já com 16 anos, ao acompanhar um amigo meu numa aula de baixo na escola de música para funcionários da Eletronorte. Chegando lá, ouvi o som vindo de uma aula de bateria. Veio toda a referência da infância e eu me reencontrei com a minha identidade. Três meses depois – tendo aulas com o Onildo, antigo baterista de Brasília, hoje advogado – minha mãe, vendo a situação, me deu o mais importante empurrão na vida e comprou, naquela lojinha que ficava no Venâncio 3000 (não me lembro mais o nome), minha primeira bateria. Era uma pingüim preta. Depois me deu o segundo empurrão, quando me autorizava a ensaiar aos sábados e domingos, no escritório de nossa casa na QL 04 do Lago Sul. Para finalizar, inscreveu a minha primeira banda, Protocolo Geral, no 1º Festival de Música da Telebrás, realizado em junho de 1985 no clube Telestar, que nem sei se existe mais.
Nunca gostei muito desse termo “cena qualquer coisa”. Minha cena sempre foi a música, ou melhor, a arte a partir da música. Acho que independência é isso aí. É atitude, coerência, estética; enfim, uma das formas de passar por essa coisa mágica e maravilhosa que é a vida. É dizer fazendo, vivendo e compartilhando a sua verdade. Isso para mim é a realização, a felicidade divina.
Você já tocou em diversas bandas e projetos. Cite quais e quantos discos conseguiu lançar como músico?
Após o Protocolo Geral, toquei, como baterista, pelas seguintes bandas, cronologicamente: Eva Serpens, Burguesia Decadente, SQS, Fama Volat, Os Rochas, Haroldinho e Paulinho Mattos, Doc Miranda e banda (Campinas-SP), Mel da Terra, Oficina Blues (fundei a banda), Vagabundo Sagrado, Suzana Mares, Haroldinho Mattos. Fundei os grupos Another Blues Band, Papa Charlie Blues e BSB Disco Club. Ainda toquei com Renato Mattos, fundei a banda Oitenta e fiz uma última tentativa mal sucedida ao fundar a Orquestra Motown. Quanto aos registros fonográficos, minha estréia foi com a banda Os Rochas, que em 1989 lançou a primeira cassete comercial em Brasília, em parceria comercial com a extinta Discoteca 2001.
Depois, em 1990, de forma totalmente independente, porém com recursos de uma empresa brasiliense de informática, a ICT, lançamos o segundo disco, ainda em vinil, do Mel da Terra. Na seqüência, lançamos, com patrocínio do Giraffas e da Discoteca 2001, o primeiro CD gravado ao vivo de Brasília, com o Oficina Blues, e o segundo, que foi de estúdio, exclusivamente patrocinado pela Discoteca 2001. Em 1994, produzi e gravei o primeiro CD do guitarrista Haroldinho Mattos, com subsídio privado da Autecar Veículos (oficina mecânica). E agora, em 2009, com patrocínio do Rayuela e da ONG Preserve Amazônia, gravei e produzi o primeiro CD da banda Another Blues Band, que chegará a Brasília nos próximos dias.
Acho que isso é outro exemplo de independência. Ou seja, parcerias com empresas privadas e locais, investindo no desenvolvimento da economia cultural, num modelo simples de mão dupla.
Como e quando surgiu a marca GRV?
Quando nasci (risos). Afinal, GRV é Gustavo Ribeiro de Vasconcellos. Brincadeiras a parte, veja que coincidência: em 1997, ao oficializarmos a minha pessoa como empresário da BSB Disco Club, que foi totalmente decidida por critério de exclusão pelos integrantes do grupo na época, eu resolvi me posicionar perante contratantes com o nome GRV Business & Entertainment. A brincadeira deu certo e em 2000, ao formalizar a empresa juridicamente e fisicamente, reduzi para GRV. E hoje, e assim você entenderá a coincidência, estamos nos reposicionando no mercado dentro de um formato mais moderno e abrangente e em breve nossa companhia atenderá pelo nome de GRV Media e Entretenimento.
Quem são os artistas ou bandas que estão (ou já estiveram) ligados ao selo? Quantos discos já foram lançados?
De agosto de 2002 até março de 2009 lançamos 28 CDS e um DVD. São eles, pela ordem cronológica: BSB Disco Club, Kiko Péres, Reggae do Cerrado (coletânea), Tex Quarteto, Festival Rolla Pedra vol. I (coletânea), Los Tranquilos, Guitarras do Cerrado Vol I (coletânea), Celso Salim (Going Out Tonight), Dillo D´Araújo, Tijolada Reggae, Carol Fazu, Metal do Cerrado Vol. I (coletânea), Pé de Cerrado, Cadabra, Slug, Zero 10, Caça Bandas (coletânea), Beats and Bites (coletânea), Los Tranquilos (Excelentíssimos e Ordinários), João Ninguém, Haroldinho Mattos, GTR 10 anos (coletânea), Celso Salim (Big City Blues), Paula Nunes, Rafael Cury, Thais Uessugui e o DVD da Banda Pequi, de Goiânia, em parceria com projeto Toca Brasil, do Itaú Cultural. Isso dá mais ou menos quatro discos por ano e nos confere a marca de 13ª maior gravadora independente do país, em volume de lançamentos e quantidade de obras, entre os associados da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente).
O mercado fonográfico vem passando por profunda mudança por conta da Internet, downloads e sites de compartilhamento musical. Como você vê esta revolução e como ela afeta seu selo como negócio?
Estamos antenados desde o início e, no meu caso específico, tive o privilégio de conhecer e compreender a Internet antes mesmo dela ser disponibilizada para o público. Trabalhava no Ibama em 1994 e, como instituição de pesquisa, nós conhecemos, testamos e entendemos a ferramenta no Centro de Sensoriamento Remoto, onde trabalhava com interpretação e monitoramento ambiental via imagens de satélites.
A primeira banda de Brasília a ter um website foi desenvolvida por mim e era a Papa Charlie Blues. Sou formado em Processamento de Dados e pós-graduado em Redes de Computadores. Ou seja, comunicação digital faz parte das minhas atividades desde os primórdios. Sou a favor de ferramentas comerciais digitais e usufruo das que valem à pena, sempre que aprovadas pela ABMI. E o que define minha entrada e participação é a legalidade, transparência na prestação de contas e pagamentos autorais e artísticos, afinal represento os direitos e interesses de muitos.
E como você vê a cena musical independente em Brasília hoje? Quais bandas ou artistas novos te chamam a atenção?
Vamos dividir assim: mercadologicamente é bastante despreparada, desinformada, desunida e, em alguns momentos, desinteressada e bem preguiçosa. Artisticamente sempre fomos ricos, verdadeiros diamantes estão aqui. Mas, sem a compreensão e a preparação para este negócio, para esta economia, enfim, para esta carreira, é triste ver tanta matéria prima sendo desperdiçada.
Quais são os projetos mais importantes desenvolvidos pela produtora GRV ao longo destes anos? E quais os principais planos para 2009?
Sentimos muito orgulho de termos colaborado para a criação e expansão de um modelo de negócios pioneiro em nosso país a partir da Feira de Música Independente. Todos os dias vejo nossos principais alicerces sendo referência para atividade de outros. Só lamento pelos brasilienses, que aos poucos perceberão as oportunidades que perdemos, que estavam aqui, na nossa casa, a nossa disposição.
Outro orgulho nosso é o Festival Universitário de Música, que concluirá sua primeira edição agora em abril ao lançar o CD do ganhador do evento, a banda Gilbertos Come Bacon, de Planaltina. Com todo respeito àqueles que julgam os projetos especiais do nosso imprescindível Fundo de Apoio a Cultura (FAC), um projeto como este não receber nem o mérito dentro dos avaliadores do respectivo fundo é de chorar. Afinal, durante três dias, em um templo cultural local, o Conic, de forma gratuita, democrática e transparente, proporcionamos três dias de música, palestra, ações sociais, ambientais, educacionais, de intercâmbio com a França, além da nossa campanha de valorização do CD, onde artistas e gravadoras locais venderam um total de quase três mil discos em troca da inclusão e participação no evento.
Outra ação que gostei muito de fazer foi o Curto Circuito Independente na Livraria Cultura, do Casa Park. Foram debates muito gratificantes, mas o interesse da classe é de arrepiar. Sempre alguns e quase sempre os mesmos. E olha que lá debatíamos nós mesmos, nossas carreiras, oportunidades, negócios. Enfim, esses são nossos projetos especiais, que tivemos o maior prazer de empreender e executar, mas uma empresa vive de resultados e hoje nossa orientação está mudando e dificilmente repetiremos esses formatos. Uma pena.
Para 2009 a orientação dentro da GRV é a própria GRV, seus artistas, obras de arte, serviços e clientes. O nosso foco é a nossa companhia, que graças a Deus está saudável, não está em crise. Muito pelo contrário, estamos felizes e otimistas com tudo que nos planejamos para fazer, com a ótima equipe que finalmente conseguimos montar e com o apoio e auxílio de nossos parceiros comerciais e fornecedores de anos; e o melhor, rodeados por artistas e suas criações maravilhosas.
A Feira da Música Independente Internacional de Brasília (FMI) foi realizada de 2005 a 2007, mas não aconteceu em 2008. O que houve?
Basta ler sobre as capitanias hereditárias. Está tudo lá. Mas, associações à parte, é uma longa história que um dia tenho vontade de contar em um livro sobre empreendimentos culturais usando a FMI como referência. Sem dúvida, foi uma experiência inesquecível e meu maior orgulho foi a complexa engenharia, pelo menos para mim, pois não aprendi isso em lugar nenhum, que construímos. Considero a FMI até o momento minha obra-prima, pois nasceu no meu coração de artista e foi executada a partir das minhas necessidades e angústias para dar vazão a nossa produção musical. Acho isso, ser independente.
O objetivo era muito simples, apenas expor, agregar e comercializar em várias vias, a partir do capital privado nos espaços públicos, sem headliners e, sim, com “everybodyliners”, de todos, com e para todos. Mas, na prática, tomou proporções inimagináveis, até que ficou inviável, pois, pelo menos para mim, existe uma regra básica para qualquer ação que envolva trabalhadores. Ou seja, todos têm que ser remunerados por seus trabalhos e colaborações. Se isto for impossível, não faço.
Não tenho coragem de virar para um músico e autor, que é o que dá sentido a esta economia, e pedir para alguém tocar de graça. Por divulgação ou promoção. Porque a estrutura em que se apresentarão será a mesma sei lá de quem do exterior. Esse raciocínio para mim é inconcebível, ainda mais onde se vende ingresso, bebida, camiseta, CDs e etc.
Claro que cada um tem liberdade para dar o valor que bem entender ao seu trabalho e fazer o que quiser com ele. Mas, infelizmente, músicos aceitam isso sei lá por que. De graça, pra que? Essa postura diletante não vai a lugar algum e o que percebo é que os profetas dessa ideologia, os que se consideram supra-independentes, coincidentemente não vivem nem parcialmente de rendimentos com música. Legislam a criação sem o mínimo conhecimento de causa da vida de um músico-artista. Isso, pelo menos para mim, não é ser independente, nem aqui e nem em nenhum lugar dos quais tive o prazer de conhecer. Isso é um retrocesso, da época das capitanias hereditárias, com os senhores de engenho, escravos e os bobos da corte.
Não percebem nem que prestam um desserviço sócio-econômico, pois, no mínimo, tiram a oportunidade daqueles que muito precisam deste trabalho e rendimento, entre outras milhares de conexões econômicas paralelas.
E isso eu acho que explica com simplicidade porque não houve a FMI 2008. Não houve dinheiro e, para nossa surpresa, dinheiro nenhum e, sim, muita dor de cabeça, pois se tem uma coisa que orgulha aqueles que trabalham na GRV é: não temos dívida financeira alguma e nem transformamos fornecedores e parceiros em sócios de prejuízos da noite para o dia por uma infelicidade.
Isso é uma coisa séria. Uma feira de negócios. Se depois de três edições, e todos os seus resultados e desdobramentos, não conseguiu sensibilizar patrocinadores e se auto-subsidiar é porque tem algo de errado. E eu, como escorpiano, nessas horas prefiro entrar para debaixo da terra, analisar e refletir. Talvez seja influência da minha formação no mar. Se não tem onda, recolhe-se a prancha e vai-se fazer outra coisa até mudar o vento e as ondas voltarem.
E é nesse momento que estamos. O mar ficou de ressaca e agora estamos “flat”. Já reconstruímos o que foi levado e detonado pelo maremoto e estamos na mais absoluta calmaria, esperando pelo vento e as novas ondas.
FMI virou uma marca que foi transportada para as ondas do rádio com um programa semanal na Rádio Cultura FM. Como surgiu esta oportunidade e como está sendo esta experiência pra você?
Na minha cabeça, se vivêssemos num país sério, que respeitasse pelo menos a Constituição, teríamos uma feira de música diária em todas as freqüências radiofônicas. Infelizmente, e a gente conhece os motivos, não é assim. E, por incrível que pareça, totalmente natural, normal e impune. Mas, como existem alguns veículos e, no nosso caso em Brasília, temos a sorte de ter a Rádio Cultura FM e um cara de cabeça aberta como diretor, o meu amigo tricolor Marcos Pinheiro, resolvi propor levar a pluralidade musical da feira, com foco na produção musical brasileira de gravadoras independentes e auto-produtores. Além de informações sobre oportunidades e ações e discussões de temas atuais dessa indústria. E a experiência tem sido divertida e surpreendente. Um excelente canal de desdobramento que tenho o maior prazer de fazer e colaborar semanalmente.
Você é uma pessoa bastante envolvida na discussão de políticas culturais, públicas e privadas. Como vê a atuação do governo na cultura do Distrito Federal? E o apoio da iniciativa privada?
Eu acho que a gente tem que emitir uma opinião em cima de fatos. Como não existe em nossa cidade política pública de Estado para a cultura, não tenho o que analisar. Temos que ressaltar e parabenizar o empenho de agentes culturais locais que conseguiram uma grande conquista que foi o aumento de volume financeiro para o FAC.
Eu, com 24 anos dedicados a música e a produção cultural da cidade, ainda não tive o privilégio, nesta gestão governamental, de usufruir do FAC e nem de nenhuma ação empreendida pela Secretaria de Cultura. Não sei o que acontece e nem o que fazem. Aliás, tem um sábio amigo meu que tem uma frase ótima para esse momento: “Às vezes fazer política é não ter política nenhuma para apresentar”. Eu acho que é esse o nosso momento.
Nas poucas vezes em que nos relacionamos foi lamentável. Na FMI 2007 não arcaram com a totalidade dos pagamentos de cachês dos artistas de Brasília. Ou seja, tive que pagar do meu bolso os artistas Eduardo Rangel e Stereoluna. Os outros demoram até seis meses para receber, mas pelo menos receberam. Na seqüência, não recebi o FAC da FMI 2007, aprovado na gestão anterior, que quando começou a ser pago pela atual gestão, a FMI já tinha passado. Ganhei, mas não recebi. Batalhei junto a Procuradoria Geral do Distrito Federal solitariamente para receber e não consegui. Foi um prejuízo de R$ 40 mil reais. Em 2008, soubemos a dois meses da data prevista para a FMI que teríamos que pagar pela ocupação do teatro, que sempre nos foi disponibilizado como apoio da Secretaria de Cultura. Como isso era uma resolução da Procuradoria, nos demos por vencidos e ficamos sem local, após passar seis meses promovendo a feira de Brasília no exterior e sempre informando nossos passos e ações. Meses depois, o Seminário Internacional de Dança teve o mesmo problema acima descrito, mas graças a Deus aconteceu.
Além disso, e parece hilário, fomos enquadrados no calendário de eventos da Capital da América Latina. Isso muito nos honrou, mas ao questionar se, por conta disso, teríamos algum suporte dada à importância que havia nos dado, obtive resposta negativa, naquela ocasião, da BrasíliaTur, que hoje patrocina o pré-lançamento do CD da grande banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, que inteligentemente liberou a cobrança do evento, assim como a FMI. Porém, não faz parte deste calendário.
E por último, na última edição do FAC, foram contemplados apenas nove projetos especiais e a Feira ficou de fora, em 22º segundo lugar. Quais os critérios eu não sei, mas fizemos a maior feira do mercado fonográfico independente da América do Sul aqui em Brasília. E, sem desmerecer nenhum dos 21 que ficaram a nossa frente, não entendo como, em menos de um ano, caímos de evento oficial do calendário da Capital Cultural das Américas para 22º lugar nos projetos especiais do Fundo de Apoio a Cultura. Mas uma coisa é certa, vamos continuar batalhando.
Quanto ao setor privado, eu me viro bem com meus parceiros, graças à credibilidade e relacionamento de anos. Mas as grandes empresas estão fora daqui, seus departamentos de marketing decidem, com as respectivas agências de propaganda controladoras, os seus projetos e planos a milhas daqui. E, em vez de recebermos incentivos pesados, seja da cultura, seja do turismo, para potencializar a nossa riqueza, tenho acompanhado a destinação de recursos para a criação de hino por um ilustre desconhecido, de verbas promocionais do cinqüentenário para carnavais do Rio, da Bahia e por aí vai. Um verdadeiro tiro no pé, retrógrado e ultrapassado. Olhem para Pernambuco, Bahia, Pará e tantos outros bons exemplos de valorização do que é da terra.
E como avalia o momento da música independente como negócio, em níveis local e nacional?
Em nível local é pífio. Quantas casas têm música autoral? Quantas rádios tocam produção local? Quantos programas de TV existem? Quantos veículos falam consistentemente de nossa pluralidade local? Quantas lojas temos? Quantas ações públicas temos? Quantas instituições privadas temos? Quantas capacitações? Oficinas? Workshops?
Fenômeno na Internet gratuita é referência? Eu vi lá na boate Pixy o “fenômeno” Mallu Magalhães. Confesso que prefiro a realidade de resultados do outro fenômeno... mesmo no Corinthians. A artista foi capa de tudo, esteve em todas as matérias e não tinha nem 200 pessoas para vê-la. Será por quê?
E, sinceramente, por onde tenho passado e acompanhado em nível nacional, a coisa oscila entre igual a Brasília ou pior.
Entre as iniciativas da GRV está a promoção de vários debates, realizados em espaços como a 508 Sul e a Livraria Cultura. Quais foram os resultados efetivos destas discussões? Como foi a participação de público e músicos? Pretende realizar novos debates este ano?
Acho que reunir as pessoas e debater nossos problemas é um grande desafio. Logo, o simples fato de nos encontrarmos e sabermos tudo em que todos estão atuando e oportunizando já é uma grande conquista. Acho que aproximamos muitas pessoas de origens diferentes, com pensamentos diferentes, mas com questões em comum. E, até onde acompanho, muitos desses encontros e aproximações estão tendo continuidade e gerando novas ações e resultados.
A participação do público eu considero boa, pois esses encontros são para interessados mesmos, que, a partir dali, capilarizam-se e por aí vai. Quanto aos músicos, eu sinceramente esperava mais, muito mais.
Pretendemos realizar não só debates, como investimentos em cursos e workshops em breve. Mas, nesse exato momento, ainda estamos cuidando de nossa “plantação”. Ou seja, estão em fase distintas de produção e finalização os CDs do Gilbertos Come Bacon, Another Blues Band, BossaFunk, Georgia W. Alô, Renata Jambeiro, Brazucas, Alessandro Corrêa e Rogério Midlej.
Viva a música, músicos e autores da rica produção de nossa cidade! E muito obrigado pela oportunidade e pelo espaço concedido a nós.
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