Marcelo Barbosa, 32 anos, brasiliense e ariano, começou na música aos 12, após ganhar uma guitarra Giannini de presente da avó. Aos 16, passou a levar mais a sério o que até então era um hobby e, no ano seguinte, já era músico profissional. Influenciado por nomes como Steve Vai, Joe Satriani e Yngwie Malmsteen, entre outros, e ex-aluno de "feras" como Allan Marshall e Greg Howe, nunca se acomodou na cena local.
Desde 1996, Marcelo é proprietário do GTR Instituto de Guitarra, que atualmente possui três endereços em Brasília e mais de 500 alunos. Em 1998, formou a banda de metal progressivo Khallice, que, em 2003, gravou o primeiro CD, The journey. Em 2008, com o segundo disco saindo do forno, seu grupo foi escolhido para abrir o show que a nova-iorquina Dream Theater fará no Rio de Janeiro, em 7 de março.
Tanta novidade não o fez descuidar da carreira solo, na qual prepara o disco de estréia Inside your head, nem de seus outros projetos: o Almah (ao lado de integrantes do grupo paulista Angra) e o Zero 10, que há nove anos freqüenta os principais palcos da cidade alternando repertório de covers do pop/rock nacional e internacional com material autoral.
Em entrevista exclusiva ao site Rock Brasília, Marcelo Barbosa nos conta a sua trajetória, projetos musicais e sua escola para formação de guitarristas.
Rock Brasília – Como é que aconteceu esse lance do Khallice abrir o show do Dream Theater no Rio?
Marcelo Barbosa – Foi uma surpresa! O Mark Portnoi, baterista do Dream Theater, postou no fórum dele que estariam selecionando bandas para abrir os shows da turnê na América Latina. Um fã me mandou e-mail: “Como eu gosto muito do Khallice e acho que vocês têm uma grande chance de abrirem o show, estou avisando para se inscreverem”. Eu estava fora do Brasil, foi no final de janeiro. Já estava de saída do hotel, mas decidi ficar mais um pouco para resolver isso. No site pedia só pra escolher a cidade onde gostaria de abrir o show e deixar o link para o myspace ou o site da banda, algum lugar onde eles pudessem ouvir a música. Uma semana depois recebi um e-mail do Mark dizendo que a gente foi selecionado para abrir o show do Rio. Os próprios caras ouviram e escolheram o Khallice!
Rock Brasília – Quantas bandas eram?
Marcelo – Mais de 500 da América Latina! Não precisava ser da cidade onde haveria os shows. Já tocamos várias vezes em Belo Horizonte e São Paulo e sempre quisemos nos apresentar no Rio. Achamos que seria uma forma de tocar lá pela primeira vez e em grande estilo.
Rock Brasília – Como é que vai ser a sensação de abrir o show de uma banda que é influência para o som do Khallice?
Marcelo – Demorou pra ficha cair, estamos meio em êxtase porque todos os membros do Khallice passaram a adolescência ouvindo Dream Theater. Está sendo a realização de um sonho e a gente vai aproveitar a oportunidade para mostrar o nosso trabalho para esse público específico do progmetal.
Rock Brasília – Como é que você analisa essa cena do progmetal no Brasil, as bandas que estão despontando...? O que tem chamado a sua atenção?
Marcelo – Eu acompanho alguma coisa, não dá tempo pra ver tudo, tem muita banda boa. Tem o Akashic, do Sul. No Rio tinha o Sigma 5. São Paulo tem muita coisa legal também. Mas a cena do rock pesado como um todo, até mesmo em países europeus, é restrita, ainda mais a do progmetal. A gente não pode tocar em qualquer festival, em qualquer casa noturna. Eu acredito que o show com o Dream Theater será o que a gente vai tocar para mais pessoas que realmente curtem o estilo.
Rock Brasília – Você é proprietário do Instituto GTR desde 1996, toca no Zero 10, tem o trabalho solo, o Almah... Como consegue conciliar tudo?
Marcelo – É só não dormir (risos)! Graças a Deus, o Zero 10 tem uma agenda bem cheia. Mas eu tenho um acordo bom com a banda. Quando preciso viajar para tocar, ou algo assim, tenho amigos que me substituem. Quanto à GTR já é uma empresa estabilizada. Então, se eu me ausentar alguns dias, não é um grande problema. Mas realmente é difícil, a gente precisa abrir mão de algumas coisas e ter muita disciplina, muito foco, para dar conta. Nesse show do Rio a gente vai lançar um CD promo, com cinco músicas. Para o CD cheio, com 11, falta ainda a mixagem. O nosso produtor, o Daniel Felix, que também trabalha com o Natiruts, está sempre fora da cidade. Então a gente quer aproveitar todo o tempo que ele está aqui para poder finalizar esse trabalho.
Rock Brasília – As cinco músicas do promo vão sair no CD?
Marcelo – Sim, e vamos levar mil CDs para o Rio e dar para as primeiras mil pessoas da fila do show.
Rock Brasília – Vamos falar especificamente da Zero 10, que, como você falou, tem a agenda cheia, toca nas casas noturnas como cover, mas que se aventurou a fazer uma coisa autoral. Como funciona isso dentro da banda?
Marcelo – A gente demorou muito pra lançar o trabalho autoral, já estávamos há seis anos na noite brasiliense. Eu tinha o Khallice, outros músicos tinham outros trabalhos, mas o André Fantom (vocalista) deixou o Bootnafat e não tinha nenhum trabalho autoral. Então a gente pilhou muito por insistência dele. Gravamos em 2005 esse disco, chamado Novo Dia, pela GRV, do Gustavo Vasconcelos. Fizemos um show de lançamento no Teatro Nacional e rapidamente esgotamos os mil CDs prensados. Mas o mercado fonográfico está numa fase de indefinição, ninguém sabe direito o que vai acontecer... Então, passou um ano do lançamento e pensamos: “Pô, será que a gente lança o segundo?” Resolvemos então dar uma pausa na carreira autoral, continuar fazendo os shows cover com algumas músicas do nosso CD.
Rock Brasília – Qual é a dificuldade de ser músico em Brasília?
Marcelo – Acho que é a mesma de ser músico em qualquer lugar do Brasil. Em termos de mercado, Brasília, pelo que eu converso e pelo que vejo, nem é tão ruim quanto os brasilienses costumam dizer. Temos várias casas noturnas que não só abrem espaço para as bandas tocarem, mas que também pagam cachês condizentes. Temos vários festivais, tipo Porão do Rock e os de colégios. A cena musical é muito efervescente, sempre tem alguma coisa acontecendo. O que mais me incomoda aqui é a falta de união dos artistas, das bandas, tanto em relação à organização quanto à venda de shows. Tem uma disparidade muito grande entre os valores dos cachês, isso complica um pouco quando você vai vender um produto. Eu, graças a Deus, tenho a escola que é minha maior fonte de renda, mas, apesar de tocar muito na noite, se eu fosse viver só dos shows não daria.
Rock Brasília – A maior queixa que as bandas autorais têm é que a grande maioria das casas noturnas abre espaço para o cover. Você, como músico da Zero 10, tem onde tocar. Mas, como guitarrista do Khallice, é bem mais complicado. Se você só tocasse numa banda autoral, acha que teria o mesmo espaço? Como analisa o espaço para música autoral em Brasília?
Marcelo – Se entrarmos na questão artística da coisa, complica muito. Perdeu-se essa cultura de sair à noite, à tarde, como era há algum tempo, quando tinha o Projeto Cabeças, a Feira de Música, onde você ia ouvir um som autoral. Os produtores há 15 anos descobriram que poderiam ter uma banda de uma garotada tocando versões de alguém e não pagar cachê pra eles. Isso virou uma maquininha de fazer dinheiro. Com isso as casas noturnas foram na mesma onda. Não sei se é um fenômeno unicamente brasiliense porque não conheço tão bem os mercados das outras cidades. Mas a gente sentiu isso quando lançamos o disco do Zero 10. Todo mundo estava feliz porque ganhava um cachê legal, a casa enchia, pois todo mundo ia pra lá dançar e ouvir as músicas que já conheciam do rádio. Só que, quando a gente queria tocar as músicas autorais... Os próprios donos das casas noturnas diziam: “Toquem menos as músicas de vocês e mais os sucessos”. É uma questão totalmente financeira.
Rock Brasília – Você, como músico, não se sente um pouco desprestigiado com isso?
Marcelo – Claro! Mas é aí que entra o Khallice na minha vida. A gente toca pelo tesão, o público de metal é muito fiel. É com esse trabalho que eu lavo a alma. Com o Zero 10 todo mundo é irmão, é sempre gostoso tocar e tal. Mas acaba sendo um momento de lazer, de diversão, e também uma oportunidade de ganhar um trocado fazendo o que a gente gosta de fazer.
Rock Brasília – Você também tem o seu lado autoral solo. Participou das coletâneas Guitarras do Cerrado e dos 10 anos da GTR, lançadas pela GRV. Tem algum projeto de fazer um disco solo inteiro?
Marcelo – Tenho sim. Possivelmente no final deste ano vou “alugar” mais uma vez meu amigo Daniel (Félix) e mandar ver nisso também. Já tenho algumas músicas, todas instrumentais. Mas antes eu tenho o CD do Khallice para terminar, tem o trabalho do Almah que vai ser gravado daqui a pouco. Aí, sim, vou me dedicar exclusivamente a esse projeto solo, que é também uma coisa de realização pessoal. O rock cantado já é uma coisa restrita, imagina instrumental e rock?
Rock Brasília – E o Almah?
Marcelo – Fui convidado para entrar na banda em julho do ano passado. São os mesmo músicos do Angra (exceto os guitarristas), que é o maior expoente do metal do Brasil e um dos maiores do mundo. Eles têm uma baita carreira na Europa, no Japão, mas estão parados por tempo indeterminado por um problema com o produtor que detém a marca. Então, resolveram montar outra banda e continuar tocando independente do Angra. O Edu Falaschi, o vocalista, já tinha um trabalho solo chamado Almah. O pessoal (Felipe Andreoli no baixo, Aquiles Priester na bateria e Fabio Laguna nos teclados) decidiu aproveitar o nome. No começo não queriam um guitarrista que não fosse de São Paulo. Quem estava tocando com eles era o Edu Ardanuy. Só que o Dr. Sin, a banda dele, lançou disco novo e os caras me procuraram. Fizemos 16 shows pelo Nordeste, pelo Sul. Íamos fazer uma turnê na América Latina, mas não deu certo. Uma turnê européia estava marcada para março, mas o Edu Falaschi achou melhor adiá-la e fazer um trabalho novo. A gravadora do Japão já estava pressionando. Então a gente está aproveitando esse período para se encontrar semanalmente. Ou eu vou para São Paulo, ou eles vêm pra cá.
Rock Brasília – Então você agora está numa bola dividida. Vai gravar um disco com o Khallice e outro com o Almah. Como vai ser isso?
Marcelo – O Khallice é um projeto onde já estou há muito tempo e onde eu adoro tocar. Estou deixando a coisa acontecer, sem sofrer por antecipação, mas não quero negligenciar nenhum dos dois. A gente está gravando as coisas, é muita grana que investimos. Até porque, no Almah, eu sei que a prioridade dos músicos é mesmo o Angra. Já são 15 anos de carreira, uma marca, os caras não vão jogar isso pro alto de uma hora pra outra.
Rock Brasília – Como é que estão os prazos? Quando saem os CDs do Almah e o do Khallice?
Marcelo – O do Almah está previsto para o segundo semestre. O do Khallice, entre abril e maio.
Rock Brasília – Então, na pior das hipóteses, você pode fazer uma turnê com o Khallice e, depois, com o Almah...
Marcelo – Essa é a idéia. O Khallice tem contrato com a gravadora Magna Carta. Quando nosso CD for lançado no Brasil, sairá na Europa e nos Estados Unidos. Eles conseguiram licenciar para algumas gravadoras na Rússia, Alemanha, Itália. Com o disco na mão, terão interesse em fechar com outros países, como o Japão ou onde sabemos que tem muita abertura para esse tipo de som.
Colaborou Marcos Pinheiro
JOGO RÁPIDO COM MARCELO BARBOSA
Uma frase – “Quanto mais me dedico mais sorte eu tenho”.
Uma paixão – Meu filho, Moreno.
Um hobby – Taekwondo.
Um filme – Brilho eterno de uma mente sem lembrança.
Uma comida – Macarrão.
Uma música – Eleanor Rigby (Beatles).
Um músico – Guinga.
Uma banda – Dream Theater é muito óbvio, né? Então, Deep Purple.
Fotos: Daniel Zukko