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Um pouco de Bob Dylan
Lembrar o começo da carreira do cantor é sempre uma inspiração!

por Alexandre Trovão
22 de janeiro, 2010


Bob Dylan em seu segundo disco, ainda era um artista à procura de afirmação. Apaixonado por Woody Guthrie teve nele o modelo a ser seguido, e música a ser igualada. Escolheu, desde o primeiro disco, a dita música de protesto, o que lhe acarretou diversos problemas futuros. Artista que é, nunca quis ficar preso a um único estilo.

The Freewheelin' Bob Dylan tem a “maldita” alcunha de ser “o disco de uma geração”. Para quem não conhece esse álbum, pode parecer que ele é cheio de músicas datadas. Por suas bases folk - ritmo em voga na época - que caracterizavam bem a dita música de protesto. Jovens universitários americanos, artistas e intelectuais que rejeitaram o blues negro, tomaram o folk como sua música. O Blues não recebia o valor merecido na América. Isso ficou a cargo dos ingleses. “Nós metemos a mão na lixeira da América e fizemos nossas melhores músicas” como disse Eric Burdon dos Animals. O certo é que Dylan, em seu sonho de se igualar a seu ídolo maior, Woody Guthrie, optou por um disco essencialmente folk.

Com o passar do tempo, ele assumiria outras influências, principalmente vindas do sucesso dos Beatles. E também para fugir da popularidade que estava recebendo como ídolo de uma geração.

Ainda assim trata-se de um disco fundamental. Depois dele, Dylan seria tratado como um unparalleled songwriter. Lançado nos EUA em 27 de maio de 1963 e no Reino Unido em Novembro do mesmo ano, o disco segue a cartilha folk vigente na época. Tem somente Dylan no vocal, violão e voz. Nada mais.

O álbum abre com o clássico maior “Blowin’ in the Wind”, música presente em todo e qualquer filme ou documentário que retrata o início dos anos 60. Guerra do Vietnã, Martin Luther King, movimento da contracultura, revolução cubana. Todos esses momentos históricos são mostrados com a música ao fundo. É uma bela canção, apesar do discurso do Suplicy ter tentado desmoralizá-la. Afinal, como ridicularizar uma música que começa dessa forma: “Quantas estradas precisará um homem andar antes que possam chamá-lo de um Homem? (...) A resposta meu amigo está soprando no vento”

Sobre “Girl from the North Country” Dylan falou: “Foi uma música que levei na minha cabeça por muito tempo. Próximo de entrar nos estúdios ela começou a aflorar”. Esta música ficou famosa pela versão gravada no dueto com Johnny Cash no álbum Nashville Skyline. Difícil dizer qual das duas versões é a melhor. Na dúvida, fique com as duas.
Monster of War, a terceira música do álbum merece uma atenção especial. Aqui temos uma música que relata sobre a corrida armamentista, sobre o uso intenso das armas nos conflitos humanos. Sem refrão, mas com riff cortante, simples e único, Dylan nos faz querer cantar junto essa que é uma das músicas sempre lembradas em qualquer coletânea lançada.

Down the highway segue a linha de músicas sem refrão, mas com riff bastante pegajoso. Aqui Dylan trata de problemas pessoais como sua solidão, apesar do namoro com Suze Rotolo, a garota com quem aparece na capa.
Bob Dylan’s Blues é meio que falada, seguida de seu violão e gaita característicos. Um folk feito bem à moda americana.
O disco segue com outro clássico presente em qualquer coletânea ou bootleg. A Hard Rain´s A-Gonna Fall . Dylan é um artista que sempre fala de suas músicas de forma não satisfeita, porém ao falar sobre essa música ele sempre a trata com orgulho. “... quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo que pude nela”, disse. A música tem um refão contagioso e sua voz característica a torna marcante. Assobiável.

Continuando, aqui começa o lado B (lado b???) . Don’t think, twice, it’s all right tem um dedilhado maravilhoso desde o início. É o tipo de música que te abraça desde seu começo. Trata - com o humor peculiar de Dylan - de como é se apaixonar. “I once loved a woman, a child I'm told. I give her my heart but she wanted my soul. But don't think twice, it's all right”.

Bob Dylan’s Dream é fruto de um bate papo com um amigo. Música simples, direta, com um violão maravilhoso, com um olhar para quando Dylan era estudante. Mais uma vez, sua voz engrandece a música.

Quanto a Oxford Town, Dylan afirma ter sido escrita para se tocar como banjo, mas no álbum ele a toca com violão. Mais uma música política que trata dos direitos civis, da tentativa de um negro entrar na University of Mississippi. Eram tempos de segregação racial nos EUA.

Outra música meio que falada do Dylan, Talking’ World III Blues é seguida de seu violão e gaita comuns. Arranjada de maneira similar a outras músicas menos relevantes. Como o próprio título sugere, é uma música sobre uma suposta terceira guerra mundial.
Corrina, Corrina não foi feita por Dylan, porém, ele fez alterações nesta tradicional canção americana. É uma música pequena, feita de forma a parecer que o violão tem apenas duas cordas. Aqui temos um acompanhamento de bateria e baixo. Seria o início de sua famosa “eletrificação”?

Honey, Just Allow Me One More Chance tem um violão bem marcado no folk, rápida e cantadoacom trejeitos de cantor folk, daqueles que cantam bem uniformizados. Dá para imaginar Dylan cantando com lenço no pescoço? Sim, ele já usou isso.
O álbum não termina da forma que começou, ou seja, de forma arrebatadora. I Shall Be Free é uma música simples. Dá para dizer que é Dylan em seu mais do mesmo. Porém, em nada diminui a grandeza do álbum.

Foi The Freewheelin' Bob Dylan que fez com que outros artistas quisessem ser Bob Dylan, que fez amantes de outros estilos olharem com carinho para sua música. Que o fez ser o “artista de uma geração”, alcunha que ele odeia. Dylan muito já fez para fugir desse rótulo. Ele quer apenas ser um artista comum.

Melhor do que falar de Bob Dylan é ouvir Bob Dylan!




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